terça-feira, 20 de outubro de 2026
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Poço mais profundo do mundo: soviéticos cavaram 12 km até o calor barrar a obra

Perfuração na Península de Kola começou em 1970, chegou a 12.262 metros em 1989 e parou ao encontrar 180°C, quase o dobro do previsto

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Poço mais profundo do mundo: soviéticos cavaram 12 km até o calor barrar a obra
Boca do Poço Superprofundo de Kola, lacrada com uma tampa soldada, na Rússia (foto de arquivo, 2012). Foto: Rakot13 (CC BY-SA 3.0), via Wikimedia Commons

O buraco mais profundo já aberto pelo ser humano na vertical tem 12.262 metros e fica no extremo noroeste da Rússia. O Poço Superprofundo de Kola foi perfurado pela União Soviética ao longo de quase duas décadas e só parou porque o interior da Terra se mostrou muito mais quente do que os cientistas esperavam, como relembrou reportagem da CNN Brasil.

A perfuração começou em 24 de maio de 1970, na Península de Kola, região próxima à fronteira com a Noruega. O objetivo era científico: atravessar a crosta o mais fundo possível e recolher amostras diretas de rochas que até então só eram estudadas de forma indireta. A meta original era chegar a 15 mil metros.

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O projeto nasceu em plena Guerra Fria, quando a disputa entre soviéticos e americanos não se limitava ao espaço. Os Estados Unidos haviam tentado perfurar o fundo do oceano no início dos anos 1960, em um programa abandonado poucos anos depois. Em terra, o recorde pertencia ao poço Bertha Rogers, em Oklahoma, com 9.583 metros. Os soviéticos superaram essa marca em junho de 1979.

A técnica também era particular. Em vez de girar toda a tubulação a partir da superfície, os soviéticos usavam uma turbina instalada no fundo, acionada pela lama de perfuração bombeada sob pressão, para mover apenas a broca. O poço não é um furo único: do tronco principal partem vários ramos, abertos ao longo dos anos.

O avanço não foi linear. No início dos anos 1980, o poço principal, chamado SG-3, ultrapassou os 12 mil metros. Em 1984, a coluna de perfuração se rompeu, e parte do trabalho precisou ser refeita a partir de uma profundidade menor. A marca final, de 12.262 metros, foi atingida em 1989.

Foi então que o calor se impôs. Os modelos teóricos previam temperaturas próximas de 100°C naquela profundidade. Os instrumentos registraram 180°C. Pela projeção dos engenheiros, o termômetro chegaria a 300°C nos 15 quilômetros planejados, nível em que brocas e equipamentos deixariam de funcionar. A perfuração foi encerrada em 1992.

Apesar da profundidade impressionante, o poço mal arranhou o planeta. Os 12,2 quilômetros equivalem a cerca de 0,2% da distância até o centro da Terra, que fica a aproximadamente 6.370 quilômetros da superfície. Na região, a crosta continental tem em torno de 35 quilômetros de espessura, o que significa que a broca percorreu cerca de um terço dela. E o furo é estreito: no fundo, tem pouco mais de 20 centímetros de diâmetro.

Ainda assim, o projeto rendeu descobertas que surpreenderam os geólogos. As amostras revelaram água circulando em grandes profundidades, onde se imaginava que a rocha fosse seca e compacta. Pesquisadores também identificaram fósseis microscópicos a cerca de seis quilômetros da superfície e rochas com bilhões de anos de idade. Outra surpresa foi não encontrar a camada de basalto que os estudos sísmicos indicavam existir sob o granito.

O recorde de comprimento já foi superado. Poços de petróleo perfurados depois dos anos 2000 no Catar e na ilha russa de Sacalina são mais longos, mas avançam em grande parte na horizontal. Em profundidade vertical, Kola continua sendo o ponto mais fundo alcançado por uma perfuração.

A experiência se repetiu em outros países. Na Alemanha, um poço científico aberto entre o fim dos anos 1980 e meados dos anos 1990 parou em pouco mais de 9 mil metros, também por causa das altas temperaturas.

O poço também alimentou uma lenda. Desde o fim dos anos 1980, circula a história de que os cientistas teriam baixado um microfone e gravado gritos vindos do fundo, o que deu ao lugar o apelido de "poço do inferno". O relato nunca teve comprovação e é tratado como lenda urbana.

Hoje, o local está abandonado. As instalações foram desativadas nos anos 2000, e a boca do poço foi lacrada com uma tampa de metal soldada, em meio às ruínas do antigo complexo de pesquisa.

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Fonte: CNN Brasil

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