Brasil é o 2º maior importador de pesticidas proibidos na UE, diz Oxfam
Relatório aponta que o bloco exportou quase 122 mil toneladas em 2024; no Brasil, 49% dos agrotóxicos vendidos são considerados altamente perigosos.
Por Redação INFO NEWS · Atualizado em

O Brasil foi o segundo maior importador de pesticidas proibidos na União Europeia em 2024, com cerca de 15 mil toneladas, atrás apenas dos Estados Unidos. Os dados constam de relatório da organização Oxfam divulgado nesta sexta-feira (16), Dia Mundial da Alimentação, segundo a Agência Brasil.
De acordo com o levantamento, os países-membros da União Europeia exportaram quase 122 mil toneladas de pesticidas banidos no próprio bloco em 2024. O volume é mais que o dobro do registrado em 2018. Ou seja, produtos considerados tóxicos demais para uso dentro das fronteiras europeias continuam sendo fabricados e vendidos para outros mercados.
O relatório indica que 93 países importam agrotóxicos perigosos da União Europeia e que 75% deles são nações de baixa e média renda do chamado Sul Global. Para a Oxfam, isso configura um duplo padrão: a Europa protege a própria população, mas permite que o risco seja transferido para quem vive e trabalha em países mais pobres.
A diretora da Oxfam Brasil, Viviana Santiago, criticou a prática. "Não é aceitável que a União Europeia proíba determinados agrotóxicos para proteger sua própria população", afirmou, ao se referir ao fato de o bloco manter as exportações. Ela disse ainda que esse duplo padrão transfere os riscos para trabalhadores rurais, comunidades e territórios do Sul Global.
O estudo trata de uma categoria específica, a dos pesticidas altamente perigosos, que a Oxfam abrevia como AAPs. Eles representam cerca de um terço dos ingredientes ativos usados no mundo. No Brasil, a participação é bem maior: os AAPs correspondem a 49% dos agrotóxicos vendidos no país. Na Alemanha, a mesma fatia é de 12%.
Segundo a organização, seis dos dez agrotóxicos mais vendidos no Brasil são proibidos na União Europeia. A Oxfam relaciona esse uso intensivo ao modelo agrícola baseado em grandes monoculturas, como soja, café e cana-de-açúcar. Em nota, a entidade afirmou que o consumo elevado está diretamente ligado a esse modelo de produção.
O relatório também aponta a concentração do mercado. Quatro empresas controlam 61% do mercado global de pesticidas e, juntas, obtiveram cerca de 2,7 bilhões de euros (R$ 15,37 bilhões) em receitas com os produtos altamente perigosos. Para a Oxfam, a combinação de lucro elevado e regras desiguais ajuda a explicar por que a exportação continua.
Outro dado citado é o ritmo de liberações no Brasil. Em 2025, o país autorizou 725 novos pesticidas, quase 10% a mais que os 663 aprovados em 2024. A Oxfam descreve o resultado como um novo recorde de aprovações. A organização afirma que os produtos são aplicados por tratores, aviões e drones, em alguns casos perto de florestas.
A Oxfam defende que a União Europeia interrompa a exportação dos agrotóxicos que proíbe internamente e avance em regras que coloquem a saúde e o meio ambiente à frente dos interesses comerciais. Viviana Santiago disse que é preciso interromper a exportação desses produtos. A organização classifica os critérios aplicados hoje como desiguais e de caráter colonial.
A Agência Brasil procurou o Ministério da Agricultura para comentar o relatório, mas o órgão ainda não havia se posicionado até a publicação da reportagem. O espaço segue aberto para manifestação do ministério e das empresas citadas no setor de defensivos agrícolas.
O tema é relevante para o consumidor brasileiro porque envolve a forma como os alimentos são produzidos no país e o nível de exposição de trabalhadores do campo e de comunidades vizinhas às lavouras. O relatório foi lançado na data dedicada à alimentação justamente para ligar o debate sobre segurança alimentar ao uso de agrotóxicos.
Como os números são da própria Oxfam, eles refletem a metodologia e os critérios da organização, e não uma apuração oficial de governos. O debate sobre exportação de produtos banidos segue em discussão na Europa e entre os países importadores, e novos dados costumam ser divulgados a cada ano.
Fonte: Agência Brasil
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